Cacau do Cassiporé inicia trajetória para conquistar Indicação Geográfica com apoio do Sebrae Amapá

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Cultivado em áreas de várzea e associado aos saberes tradicionais das comunidades locais, o fruto pode se tornar a terceira Indicação Geográfica do estado

Isabel Ubaiara

De Oiapoque (AP)

Assim como o Queijo Canastra, em Minas Gerais, o Champagne, na França, e o Açaí do Bailique, no Amapá, são reconhecidos por sua relação única com o território onde são produzidos, agora o cacau cultivado no  Cassiporé, em Oiapoque (AP), começa a trilhar esse mesmo caminho. Nesta terça-feira (9), o Sebrae Amapá reuniu produtores e instituições parceiras para dar início ao processo de estruturação da Indicação Geográfica (IG) do produto, um reconhecimento oficial que agrega valor à produção, fortalece a identidade regional e amplia oportunidades de mercado.


A gestora estadual do projeto de Indicação Geográfica do Sebrae Amapá, Mara Rida, explicou que o trabalho de estruturação começou em 2023, com a realização de um diagnóstico técnico que identificou o potencial do cacau produzido no território.

“Agora estamos ouvindo os produtores e construindo esse caminho de forma colaborativa. Essa reunião teve como objetivo organizar as etapas necessárias para a obtenção da certificação, o que inclui a validação do plano de trabalho, o levantamento de informações, a identificação de parceiros estratégicos, a formação do Comitê Gestor e a capacitação dos envolvidos sobre a temática”, disse.

Um selo para a história 

A Indicação Geográfica é um selo de propriedade intelectual concedido pelo Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), que reconhece oficialmente que um produto ou serviço é único por estar ligado a um lugar específico, reunindo tradições, saberes e características nas quais só podem ser encontradas em seu local de origem. 

O consultor de Indicações Geográficas, Ton Lugarini, destacou que a singularidade do Cacau do Cassiporé vai além da qualidade do fruto e está diretamente ligada à interação entre a natureza e os saberes tradicionais das comunidades produtoras da região.

“Quando realizei a visita técnica, percebi que existe um desejo coletivo de criar oportunidades para que as pessoas permaneçam e prosperem no local. Mesmo antes de ter acesso a estudos técnicos ou dados científicos, a vivência em campo já indicava um grande diferencial para a conquista de uma Denominação de Origem. Fatores como o regime das marés, o solo, a biodiversidade e o modo de cultivo formam um conjunto único”, afirmou.

Cacau nativo amazônico

Enquanto o cacau percorre o mundo em grandes navios carregados de commodities produzidas em países como Gana e Costa do Marfim, e ganha forma nas famosas fábricas de chocolate da Holanda, Bélgica e Suíça, a Amazônia guarda uma relação diferente com esse fruto. Aqui, o cacau não é apenas uma matéria-prima, e sim o resultado do encontro entre a floresta, os rios, o clima e os saberes ancestrais dos povos amazônicos.

No distrito de Vila Velha do Cassiporé, em Oiapoque, município localizado na fronteira com a Guiana Francesa, o cacau é cultivado em áreas de várzea às margens do rio Cassiporé. A cerca de 137 quilômetros da sede municipal, a comunidade abriga famílias tradicionais de origem ribeirinha, quilombola e indígena, das quais grande parte trabalha diretamente com a produção cacaueira, atividade que desempenha papel fundamental na economia local.

Durante o inverno amazônico, as águas dos rios sobem e inundam toda a área onde os cacaueiros estão, levando nutrientes que renovam naturalmente o solo e alimentam as plantas, criando condições únicas para o desenvolvimento do fruto.

O presidente da Associação do Cacau do Cassiporé, João Dorismar da Paixão, ressaltou que a estruturação da Indicação Geográfica representa a realização de um sonho antigo.

“Essa dinâmica da natureza faz com que o nosso cacau de várzea tenha características próprias, que não existem em nenhum outro lugar do mundo. Nós nos sentimos muito felizes porque o Sebrae acreditou nesse potencial e se tornou nosso parceiro na construção da Indicação Geográfica. Esse é um momento histórico para Oiapoque e para todos os produtores que vivem aqui”, afirmou.

Certificações do Amapá 

Atualmente, o Amapá possui duas Indicações Geográficas oficialmente reconhecidas, ambas na modalidade Indicação de Procedência (IP), concedida a produtos cuja reputação e identidade estão diretamente associadas ao seu local de origem.

A primeira IG do estado foi o Abacaxi de Porto Grande, reconhecida em novembro de 2024. Em abril de 2025, o Açaí do Bailique conquistou a certificação e se tornou a segunda Indicação Geográfica amapaense.

Entre os principais benefícios da IG estão a proteção contra o uso indevido do nome do território, a valorização dos produtos da sociobiodiversidade, o fortalecimento da organização coletiva dos produtores e o incentivo ao desenvolvimento sustentável das comunidades, além de expandir a visibilidade dos produtos nos mercados nacional e internacional.

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